quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Mistério das Cousas




Há metafíca bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso eu do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma e sobre a criação do mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos e não pensar.
É correr as cortinas da minha janela (mas ela não tem cortinas).

(...) o único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido único nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o ví.
Se ele quizesse que eu acreditasse nele, sem dúvidas que viria falar comigo
e entraria pela minha porta adentro dizendo-me, estou aqui! (...)
Mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e Sol e o Luar, então
acredito nele, então acredito nele a toda hora, e a minha vida é toda uma
oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores e os montes e o Luar e o Sol,
para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e Sol e Luar;
Porque, se ele fez fez, para eu o ver,Sol e Luar e Flores e árvores e montes,
se ele me aparece como sendo árvores e montes e Luar e Sol e Flores e montes,
é que ele quer que eu o conheça como árvores e Montes e Flores e Luar e Sol.
E por isso eu obdeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de sí próprio?)
Obdeço-lhe a viver,espontaneamente,
como quem abre os olhos e vê, e chamo-lhe Luar e Sol e Flores e árvores e Montes,
e amo-o sem pensar nele, e penso-o vendo e ouvindo,
e ando com ele a toda hora".




Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa).

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