Todo o escopo da direção espiritual consiste em penetrar na zona situada abaixo da superfície da vida do homem, de se colocar por trás da fachada dos gestos convencionais e das atitudes que ele apresenta ao mundo e de fazer sobressair a sua liberdade interior, a verdade mais íntima que está nele, que é o que chamamos a semelhança de Cristo no recesso da alma. Ora, isso é coisa inteiramente sobrenatural, pois a tarefa de salvar do automatismo o homem interior pertence, em primeiro lugar, ao Espírito Santo. O guia espiritual não pode fazer, ele mesmo, esse trabalho; sua função está em verificar e estimular o que é realmente espiritual na alma. Deve ensinar aos outros a “discernir” entre as tendências boas e más, a distinguir as inspirações do espírito do mal das do Espírito Santo. O guia espiritual é, portanto, alguém que ajuda a outrem a reconhecer e seguir as inspirações da graça em sua vida, afim de chegar ao termo a que Deus o conduz. E isso, como já dissemos, originariamente pressupunha uma vocação especial. Um guia espiritual era necessário sobretudo a alguém chamado por Deus a procurá-lo num caminho fora da rota comum e perigoso. Não se deve esquecer que, nos tempos primitivos, o guia espiritual era muito mais do que atualmente aquilo que seu nome significa. Era um pai espiritual que “gerava” a vida perfeita na alma de seu discípulo.
Thomas Merton
