sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Luz de Velas





O amor prefere a luz das velas.
Porque talvez seja isto tudo o que desejamos de uma pessoa amada: que ela seja uma luz suave que nos ajude a suportar o terror da noite. Sob a luz do amor que ilumina modesta e pacientemente, o escuro já não assusta tanto





Rubem Alves

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

É preciso Raizes






É verdade que jamais caminhamos caminhando...
O que fazemos é pensar no lugar da onde viemos e no lugar para onde vamos.
Caminhamos de um lado para o outro em todos os sentidos (...) nós não nascemos
para correr, para ganhar, para adquirirmos um monte de riquezas ou de honras.
Nascemos para viver e o gosto da vida nos escapou.
Vivemos em todos os sentidos, mas sem raizes e sem profundidades.





Jean Yves Leloup

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Dorme







Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.





Fernando Pessoa

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Cartas de Amor...





Todas as cartas de amor são ridiculas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridiculas.

Também escrevi no meu tempo cartas de amor, como as outras, ridiculas.

As cartas de amor, se há amor, tem de ser ridiculas.

Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridiculas.







Álvaro de Campos (Heterônimo de Fernando Pessoa)

domingo, 2 de outubro de 2011

Seiscentos e sessenta e seis





A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas; há tempo...
Quando se vê, já é 6º-feira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, já é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia- uma outra
                                                [oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente...
E iria jogando pelo caminho a casca dourada
e inútil das horas.







Mário Quintana

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Verdade





A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.

Assim não era possivel atingir toda a verdade, porque
a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a verdade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme seu
capricho, sua ilusão, sua miopia.







Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

...é assim.





...mas o amor não é assim. Vai e Vem.
E é por isso que dói tanto. Quando vem
é a coisa mais alegre Quando vai é a coisa
mais triste. Pôr do Sol.





Rubem Alves

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

...teu canto.








Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto
O ouvi, ouvia uma outra
voz como que vindo nos
interstícios do brando encanto
com que o teu canto vinha até nós
ouvi-te e ouvia-a no mesmo tempo e diferentes
juntas cantar e a melodia que não havia se agora
lembro faz-me chorar.







Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Sangrando







... veja o brilho nos meus olhos e o tremor nas minhas mão e o meu corpo tão suado transbordando toda raça e emoção e se eu chorar e o sol molhar o meu sorriso não se espante cante que o teu canto é minha força pra cantar. Quando eu soltar a minha voz por favor entenda é apenas o meu jeito de viver o que é amar.





Gonzaguinha

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Desventura




Tu és como o rosto das rosas: diferente em cada pétala.
Onde estava o teu perfume? Ninguém soube.
Teu lábio sorriu para todos os ventos e o mundo inteiro
ficou feliz.
Eu, só eu encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.
Depois, abri as mãos, - e perdeu-se.
Agora, creio que vou morrer.







Cecília Meireles

domingo, 21 de agosto de 2011

Perfume e Espinhos




... é claro que temos direito de preferir o perfume aos espinhos, mas o mais
importante é amar a rosa. E quando se ama verdadeiramente a rosa, quando
se ama verdadeiramente a vida, acolhemos o seu perfume e acolhemos os seus
espinhos. Acolhemos o que nos dá prazer e acolhemos o que nos entristece.
Um e outro são inseparáveis.





Jean Yves Leloup

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Palavra




Certa palavra dorme na sombra de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida, a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro, não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre e minha procura ficará sendo a minha
palavra.





Carlos Drummond de Andrade



sábado, 6 de agosto de 2011

Seguindo






Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas Rosas.
O resto é sombra de árvores alheias.






 Ricardo Reis (Heterônimo de Fernando Pessoa)

sábado, 23 de julho de 2011

Os Poemas ...




Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão.
Eles não tem pouso nem porto, alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento
deles já estava em ti.





Mário Quintana

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Perguntei






Perguntei a terra,
perguntei ao mar e as profundezas,
entre os animais viventes às coisas que rastejam.
Perguntei aos ventos que sopram aos céus, ao
sol, a lua e as estrelas,
e a todas as coisas que se encontram às portas da minha carne ...
Minha pergunta era o olhar com que as olhava.
Sua resposta era a sua beleza.





Santo Agostinho

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Grandeza






Não! Nada será perdido daqueles que foram grandes; cada qual a sua maneira
e conforme a grandeza do objeto que amou. Pois aquele que amou a si mesmo foi
grande por sua pessoa; quem amou outra pessoa foi grande porque se deu; porém
aquele que amou a Deus foi maior do que todos.





Kierkegaard

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Peixes Encantados




...te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo.
Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto misterioso, se deixa ver.
Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios...
Te amo pelos peixes encantados que nadam no teu corpo.





Rubem Alves


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Olhos







Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus
resolvem se encontrar, ai que bom que isso é meu
Deus que frio que me dá o encontro desse olhar.
Mas se a luz dos olhos teus resiste aos olhos meus só
pra me provocar, meu amor, juro por Deus, me sinto
incendiar, que a luz dos olhos meus já não pode esperar.
Quero a luz dos olhos meus na luz dos olhos teus sem mais
lará-lará. Pela luz dos olhos teus eu acho meu amor que só
se pode achar que a luz dos olhos meus precisa se casar.




Vinicius de Moraes

terça-feira, 28 de junho de 2011

Tu Tens Um Medo...







Tu tens um medo:
Acabar.
Não Vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No Desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.



Cecília Meireles

domingo, 26 de junho de 2011

Amar




Amar o perdido
deixa confundido esse coração
nada pode o olvido
contra o sem sentido apelo de não
as coisas tangíveis tornam-se insensíveis
a palma da mão,
mas as coisas findas muito mais que lindas
essas ficarão.



Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Se cada cai...




Se cada dia cai dentro de cada noite, há um
poço onde a claridade esta presa.
Há que sentar-se na beira do poço da sombra
e pescar luz caida com paciência.



Pablo Neruda

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Mistério das Cousas




Há metafíca bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso eu do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma e sobre a criação do mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos e não pensar.
É correr as cortinas da minha janela (mas ela não tem cortinas).

(...) o único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido único nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o ví.
Se ele quizesse que eu acreditasse nele, sem dúvidas que viria falar comigo
e entraria pela minha porta adentro dizendo-me, estou aqui! (...)
Mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e Sol e o Luar, então
acredito nele, então acredito nele a toda hora, e a minha vida é toda uma
oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores e os montes e o Luar e o Sol,
para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e Sol e Luar;
Porque, se ele fez fez, para eu o ver,Sol e Luar e Flores e árvores e montes,
se ele me aparece como sendo árvores e montes e Luar e Sol e Flores e montes,
é que ele quer que eu o conheça como árvores e Montes e Flores e Luar e Sol.
E por isso eu obdeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de sí próprio?)
Obdeço-lhe a viver,espontaneamente,
como quem abre os olhos e vê, e chamo-lhe Luar e Sol e Flores e árvores e Montes,
e amo-o sem pensar nele, e penso-o vendo e ouvindo,
e ando com ele a toda hora".




Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tudo aí esta.




-Não digam:
"Vamos fazer silêncio!"
Parem de fazer barulho
o silêncio desde todo sempre ai esta.
- Não digam:
"Vamos fazer o vazio!".
Parem de produzir pensamentos
o vazio desde todo sempre ai esta.
- Não digam:
"Vou pro deserto!".
Parem de ir pra lá
sejam desde já o que restará de vocês desde todo sempre.
Ofereçam suas poeiras as trilhas do vento.
O silêncio é como Deus,
basta uma palavra para perdê-lo.
O vazio é como Deus,
basta pensar nele e você já o perdeu.
O deserto é como Deus,
Basta um passo em direção à Ele e você já o perdeu".



Jean Yves Leloup


domingo, 19 de junho de 2011

Presença





"É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento das horas
ponha uma frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausencia trascale sutilmente, no ar, a
trevo machucado, a folhas de alecrim desde a muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela e
respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir como sinto -em mim - a
presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra, múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!"



Mário Quintana