terça-feira, 28 de junho de 2011

Tu Tens Um Medo...







Tu tens um medo:
Acabar.
Não Vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No Desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.



Cecília Meireles

domingo, 26 de junho de 2011

Amar




Amar o perdido
deixa confundido esse coração
nada pode o olvido
contra o sem sentido apelo de não
as coisas tangíveis tornam-se insensíveis
a palma da mão,
mas as coisas findas muito mais que lindas
essas ficarão.



Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Se cada cai...




Se cada dia cai dentro de cada noite, há um
poço onde a claridade esta presa.
Há que sentar-se na beira do poço da sombra
e pescar luz caida com paciência.



Pablo Neruda

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Mistério das Cousas




Há metafíca bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso eu do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma e sobre a criação do mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos e não pensar.
É correr as cortinas da minha janela (mas ela não tem cortinas).

(...) o único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido único nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o ví.
Se ele quizesse que eu acreditasse nele, sem dúvidas que viria falar comigo
e entraria pela minha porta adentro dizendo-me, estou aqui! (...)
Mas se Deus é as flores e as árvores e os montes e Sol e o Luar, então
acredito nele, então acredito nele a toda hora, e a minha vida é toda uma
oração e uma missa, e uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores e os montes e o Luar e o Sol,
para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e Sol e Luar;
Porque, se ele fez fez, para eu o ver,Sol e Luar e Flores e árvores e montes,
se ele me aparece como sendo árvores e montes e Luar e Sol e Flores e montes,
é que ele quer que eu o conheça como árvores e Montes e Flores e Luar e Sol.
E por isso eu obdeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de sí próprio?)
Obdeço-lhe a viver,espontaneamente,
como quem abre os olhos e vê, e chamo-lhe Luar e Sol e Flores e árvores e Montes,
e amo-o sem pensar nele, e penso-o vendo e ouvindo,
e ando com ele a toda hora".




Alberto Caeiro (Heterônimo de Fernando Pessoa).

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Tudo aí esta.




-Não digam:
"Vamos fazer silêncio!"
Parem de fazer barulho
o silêncio desde todo sempre ai esta.
- Não digam:
"Vamos fazer o vazio!".
Parem de produzir pensamentos
o vazio desde todo sempre ai esta.
- Não digam:
"Vou pro deserto!".
Parem de ir pra lá
sejam desde já o que restará de vocês desde todo sempre.
Ofereçam suas poeiras as trilhas do vento.
O silêncio é como Deus,
basta uma palavra para perdê-lo.
O vazio é como Deus,
basta pensar nele e você já o perdeu.
O deserto é como Deus,
Basta um passo em direção à Ele e você já o perdeu".



Jean Yves Leloup


domingo, 19 de junho de 2011

Presença





"É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento das horas
ponha uma frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausencia trascale sutilmente, no ar, a
trevo machucado, a folhas de alecrim desde a muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela e
respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir como sinto -em mim - a
presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra, múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!"



Mário Quintana