quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

De grandibus Humilitates

 


Não ficas envergonhado de erguer a cabeça, tu que não endireitas o coração? De ter o corpo ereto, tu que rasteja por terra? Pois não é rastejar por terra ter o gosto pela carne? Desejar o carnal? buscar o carnal? Contudo, por quanto fostes criado a imagem e semelhança de Deus, tornando-te semelhante aos animais ao perder aquela semelhança, tua vida ainda é uma imagem. Se, portanto, quando estavas na grandeza, não compreendeste que era lodo da terra, ao menos cuida, agora que estás afundado no lodo do abismo, de não ignorar que és a imagem de um Deus e enrubesce por tê-la encoberto com uma semelhança estranha. Lembra-te de tua nobreza e envergonha-te de tal defecção. Não ignores tua beleza, para não seres mais confundido com tua feiura.


Bernardo de Claraval

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Secularização

 


Como o Poder das Trevas se corrompeu? Aqui, sem dúvida, fazemos uma pergunta para a qual os seres humanos não podem dar uma resposta com absoluta certeza, entretanto, pode-se oferecer uma hipótese razoável (e tradicional) com base em nossa própria experiência de corrupção. No momento em que você tem um ego, surge a possibilidade de colocar a si mesmo em primeiro lugar — de querer ser o centro —, que é o desejo, na verdade, de ser Deus. Esse foi o pecado de Satanás, e esse foi o pecado que ele ensinou à raça humana. Algumas pessoas acham que a queda do homem teve algo a ver com sexo, mas isso é um equívoco. (A história do livro do Gênesis arma, antes, que em decorrência da queda, a nossa natureza sexual se corrompeu, mas como resultado dela, não sua causa.) O que Satanás pôs na mente de nossos ancestrais remotos foi a ideia de que eles poderiam “ser como deuses” — como se pudessem estruturar-se por si mesmos, como se tivessem criado a si mesmos —, ser os seus próprios mestres — inventar uma espécie de felicidade para si fora de Deus, à parte de Deus. E dessa tentativa desesperada veio praticamente tudo o que chamamos de história humana — dinheiro, pobreza, ambição, guerra, prostituição, classes, impérios, escravidão —, a longa e terrível história do homem tentando encontrar felicidade em algo diferente de Deus.


C. S. Lewis

domingo, 1 de janeiro de 2023

Sobre Direção Espiritual

 


Todo o escopo da direção espiritual consiste em penetrar na zona situada abaixo da superfície da vida do homem, de se colocar por trás da fachada dos gestos convencionais e das atitudes que ele apresenta ao mundo e de fazer sobressair a sua liberdade interior, a verdade mais íntima que está nele, que é o que chamamos a semelhança de Cristo no recesso da alma. Ora, isso é coisa inteiramente sobrenatural, pois a tarefa de salvar do automatismo o homem interior pertence, em primeiro lugar, ao Espírito Santo. O guia espiritual não pode fazer, ele mesmo, esse trabalho; sua função está em verificar e estimular o que é realmente espiritual na alma. Deve ensinar aos outros a “discernir” entre as tendências boas e más, a distinguir as inspirações do espírito do mal das do  Espírito Santo. O guia espiritual é, portanto, alguém que ajuda a outrem a reconhecer e seguir as inspirações da graça em sua vida, afim de chegar ao termo a que Deus o conduz. E isso, como já dissemos, originariamente pressupunha uma vocação especial. Um guia espiritual era necessário sobretudo a alguém chamado por Deus a procurá-lo num caminho fora da rota comum e perigoso. Não se deve esquecer que, nos tempos primitivos, o guia espiritual era muito mais do que atualmente aquilo que seu nome significa. Era um pai espiritual que “gerava” a vida perfeita na alma de seu discípulo.


Thomas Merton